Alguém me manda uma mensagem e no fim dela, lança-me beijos a granel. A GRANEL... Faz muito tempo que não lia ou ouvia essa locução. De repente lembrei do meu pai( já faz quase 9 anos que ele se foi) e de quando éramos pequenos, pois tudo era comprado a granel( sem embalagem ou sem acondicionamento).
Uma família numerosa, orçamento arrochado, e apenas ele (meu pai) trabalhando pra sustentar a casa. Um filho atrás do outro... Acho que "na roça" (assim se diz das residências rurais) é a falta de televisão, ou outra diversão que faz do namoro o playground do parque de diversão, sem contar que minha mãe, tinha medo de fazer laqueadura de trompas (morreria e deixaria os filhos órfãos...Assim pensava ela) e meu pai, medo de fazer vasectomia e ficar impotente. Nesse caso, quando a vasectomia foi inventada, mesmo que fizesse tal cirurgia, já era irremediável, pois a quantidade de filhos era grande (mas, de uns três se safariam). Assim a família cresceu e cresceu... Aliás, cresceu a granel e à base do granel. Comprava açúcar, café, óleo, macarrão, sabão em pó e tudo mais a granel.
Ahhhh! Os tecidos para nossas roupas também eram a granel(escolhia uma peça inteira de um tecido e pronto, roupa para toda prole... Parecíamos conjunto de jarros. Ao menos assim não nos perdíamos nas festas, porque logo achavam outro que estava vestido igual. Minha mãe nem mudava o modelo. Jarrinhos mesmo!!! Tipo meia dúzia de jarros iguais, mas de tamanhos diferentes! Aff, aff... E nos sentíamos muito elegantes.
Lembro-me que orgulhosamente dizia aos outros: “Lá em casa é tudo comprado a granel.” Achava a palavra chique. Depois descobri que ela era bem popularzinha, sem requintes, sem roupas, sem peso e medida exata. Acho que foi nesse tempo, que inconscientemente joguei a palavra no esquecimento... Hoje, ela me volta à memória, repenso a danada, e chego à conclusão que mesmo sem rótulos, ela trazia muita alegria à nossa família, pois era sinônimo de fartura. Afinal como dizia meu pai, “ a alegria vem das tripas.” Procuro mudar essa frase por uma questão vocabular, mas a essência continua igual, com a certeza de que é uma verdade indiscutível. Se nos falta o alimento, não temos força para mais nada. Aliás, basta saber como fico quando me imponho uma dieta alimentar, vai-se embora rapidinho meu bom-humor, que geralmente o tenho a granel.
Marly Bastos



