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Eu acreditava em Papai Noel. Foi menina do interior que esperava ansiosa o dia de Natal e claro, colocava os sapatos debaixo da cama pra ele saber onde deixar o que eu tinha pedido. Não eram grandes pedidos, não eram sonhos irrealizáveis para um Papai Noel, mas o fato é que ele nunca realizou um pedido meu [e nem dos meus irmãos]. Comecei a achar que o Papai Noel fazia acepção de pessoas, pois para os meus primos ele dava o que eles queriam, para mim e meus irmãos nunca deixava sequer um brinquedo. Apenas balinhas, pirulitos, gomas de mascar e Maria-mole...
Ficava imaginando que ele deveria ficar todo sujo, pois teria que descer pela chaminé do fogão e era tão estreitinha [como é que caberia aquele velho gorducho?]. Será que era por isso que ele ficava com raiva e deixava somente aquelas guloseimas? Deixávamos as janelas dos quartos entreabertas para facilitar a vinda dele, mas nem isso adiantava. Ele não gostava nem de mim e nem dos meus irmãos...
Hoje fico imaginando quantas crianças passam pelo mesmo drama que eu [drama sim, eu não entendia que o Papai Noel, presenteava de acordo com o bolso do seu pai] de se achar menosprezada pelo “bom velhinho”. Imagine as crianças nos orfanatos, ou em lares tão sem recursos como era o meu. Nossa decepção era visível e meu pai ficava com os olhos embaçados de lágrimas. Eu pensava que ele também ficava triste com o Papai Noel. Ele ficava triste era pela impossibilidade que sentia diante das circunstâncias. Posso garantir que foi mais traumatizante para eu saber que Papai Noel era uma mentira do que descobrir que cegonhas não trazem bebês.
Contei minha história para que entendam o porquê da minha reserva e até indiferença com esse dia tão alardeado. Natal é uma festa Cristã né? Mas, se perguntar as crianças qual é o símbolo do Natal elas vão dizer: Papai Noel, presépios, árvores de Natal, presentes... Enfim, é o dia que todo mundo se reúne para comer peru, pernil e outras coisas gostosas [e beber também, se possível até cair].
Natal é o dia em que se comemora o nascimento de Cristo, portanto o seu aniversário. E geralmente nesse dia de festa, confraternização e alegria pelo nascimento do Aniversariante, ele não é convidado e nem sequer lembrado... “Troca-se presentes, vestem-se de” Bom Velhinho, brindam “Feliz Natal”, mas Cristo continua de fora da festa! Como pode isso? Festa sem aniversariante!
Natal é para mim capitalismo exacerbado. É dia em que as contradições sociais mostram a cara, pois enquanto uma parte esbanja fartura, a outra amarga as sobras nos latões de lixo ou sonham com a coxa de peru que enfastiado, alguém deixou no prato pra juntar aos dejetos.
Natal deveria ser tempo de reflexões, de renovo, de renascimentos. O Natal é uma festa cristã, onde tantas crenças e enxertos a uma comemoração tão simples tornou-se desvirtuada. O Natal genuíno é aquele que é comemorado todos os dias e em agradecimento ao Rei dos reis que nasceu em humildade para nos fazer grandes em amor e comunhão com Ele e com o próximo.
Agradecemos a ti oh Deus, por ter nos enviado o Seu Filho, que se despiu da Sua Glória, encarnou e se fez homem de dores para nos dar eterna vida. Se eu comemoro o Natal? Sim, mas sem esse acerbado espírito natalino, que parece contagiar por um tempo todos, e muitas vezes, dele fica uma boa dívida pra lembrar por meses essa comemoração...
Marly Bastos