Adoro as reticências... Acho que elas propõem um mundo de possibilidades: "Talvez...", "se...", "quem sabe...", "pode ser...", "quando..."
Reticências abrem um leque que abana a imaginação de quem ouve, também apazigua as dúvidas e falta de palavras para quem fala. Quando estamos cansados de tantos pontos finais, interrogações, travessões, aspas, chaves e colchetes, vem a maravilhosa reticência e nos faz ter ovulação múltipla.
Ela é gozo pra esperança, é veste para o mistério e é asa para o sonho.
Homem é reticente quando é colocado contra a parede. Usa expressões que nem eles entendem, mas a reticência vem em seu socorro e o que era para ser uma sentença mortal, passa a ser uma mensagem indecifrável: “Olha, veja bem... Não é que eu não queira, mas... A gente poderia, sei lá... Um tempo talvez... Ainda não estou preparado... Vamos pensar mais um pouco...” Heim? O que foi que ele disse mesmo?
Mulher é reticente, mas não pelos mesmos motivos dos homens. Elas querem fazer valer a lei da dificuldade, do encanto velado, do esconde-esconde, de atear fogo e apagar, de apagar e atiçar, de esconder o que o coração está gritando... O “talvez...” dela é charme, é incerteza de ser o certo, mas quase nunca é indecisão. As reticências femininas abrem brechas na esperança e colocam lenha no trem das expectativas. A reticência nos permite enxergar a esperança depois da curva...
A reticência é cômoda, estável e também covarde por algumas vezes. Por medo de mudanças ela inverte inadvertidamente a vida. E assim, a felicidade, os sonhos, os sentimentos, a esperança, a fé, fazem com que os momentos se tornam “suspensos”... Nem só de reticências se pode viver. É necessário a emoção e surpresa da exclamação(!), a curiosidade da interrogação(?), a metodologia do ponto e vírgula, o diálogo do travessão, a pausa da vírgula, e o “The end” do ponto final.
A reticência não ousa por um fim, aliás ela está numa linha divisória onde nada começa, e portanto, nada termina...Elas são oportunas e providenciais...a supressão das reticências, dá impressão que tudo chegou ao fim... Ou não! Elas nos deixam livres para imaginar o que pode vir depois, sem engessar as vontades, ou imobilizar a esperança... Há ainda muitas possibilidades !
Três pontinhos que faz toda diferença... Eles nos fazem ficar com o pé atrás, mas também nos faz comer nuvens (de algodão doce) pensando no que seria, será ou poderia ter sido. E aquela reticência dentro de um olhar profundo? Faz um frio percorrer a espinha, faz a gente gaguejar (isso é bem reticente), ficar “multicores”... Eu tola romântica que sou, suspiro reticências por todo lado!
A reticência também pode provocar lágrimas, quando depois dos três pontinhos vier seguida de um ponto final. É o inacabado sendo terminado... Ponto final é dor ou liberdade e reticência quase sempre é espera...
Marly Bastos







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